Pontualmente, à s seis horas e três minutos, ele acordou para começar a sua rotina em uma chuvosa quarta-feira, daquelas que torcem o ânimo dos mais contentados, e abriu a janela de alumÃnio. Sentiu a brisa fresca de uma atmosfera triste, mensagem da natureza descontente, e percebeu que o desequilÃbrio era presente além do corpo que controlava. Talvez, com o tempo, se atrofiavam os pensamentos e o raciocÃnio já não permanecia o mesmo. De que maneira ele contribuiria com o todo se a sua parte estava despedaçada? Seu questionamento durou tanto quanto o desconforto térmico originado ao sair debaixo das cobertas, e logo seguiu em direção ao óbvio.
Comenta-se lá fora que ele agia de forma egoÃsta. Mal sabem os outros que tudo que ele tinha era dúvida. Dúvida do que podia fazer para mudar o que lhe incomodava e para permanecer confortável em sua casa e em sua vida, mesmo não sendo o padrão daquilo que seus semelhantes mais desejavam ou que achavam que era pertinente desejar. Estava exausto ao se sentir mais uma peça de xadrez presa num tabuleiro - o cenário que deveria ser de seu total controle estava aos poucos se transformado em manipulações inteligentes nas mãos dos que enxergam horizontes maiores que os seus. Estava cansado de todos pregarem algo que, na prática, nunca era feito e mais cansado ficava quando essas mesmas pessoas lhe opinavam invadindo suas decisões. Conturbava-se então, fortemente, ao ser cobrado e obrigado a tomar uma dessas decisões agora, quando queria apenas dormir e acordar em outro planeta.
O momento é agora, dizia a senhora de idade que de vida sofrida sabia o que talvez daria certo e o que talvez jamais daria. Ele não queria uma vida de retalhos como a dela, então lutava até a última gota de suor para que seu social, cultural e emocional permanecessem intactos. Afinal, para garantir seus sonhos, esses pequenos detalhes construiriam a perfeita "base" para que então pudesse se relacionar perfeitamente com a sociedade, sendo um bom amigo, um bom companheiro, um bom marido, um bom pai. A senhora não o contou que existem pessoas que passam pelo que ele passa e que é possÃvel encontrá-las e, por conseguinte, chamá-las de semelhante. Pois para elas não importará o sacrifÃcio, mas sim a vontade; não importará milhões de palavras inteiras, mas sim algumas pela metade; não importará quem ele tentou ser de mentira, mas sim ele de verdade.
Em meio a turbilhões de desânimo, angústia, glórias e sorrisos, parava muitas vezes e, imóvel, não sabia quem era, o que queria ou o que fazer com aquela fração de segundo de vida. Mesmo sem se mexer, o tempo não parava, corria em suas veias e pulsava em seu coração, transbordando em salivas o grito exposto de desespero e indignação. Pobre coitado. Além de si mesmo, tinha que cuidar dos outros e, se não o fizesse, continuaria se cobrando. Por que ele não poderia desencanar, como fizeram alguns de seus amigos e seu pai? Por que ele não poderia desafrouxar o nó de sua garganta e vomitar palavras sinceras para qualquer um que passasse e pudesse ouvir? E por que não para as pessoas que tinham que ouvir? Seu desabafo era silencioso, em forma de palavras pela metade e em canções nunca registradas.
Comenta-se lá dentro que caÃa no mais profundo abismo ao ver sua vida aos poucos despedaçar e ter que se preocupar com coisa demais.
E o que ele só queria mesmo era um pouquinho de paz.
O circo que vai
o circo que volta
aprende no caminho
que quem vive sozinho
tão triste se encontra
pois não há picadeiro
que sirva de palco
pra vida medÃocre
de um simples palhaço
ridicularizado por ser
ou não ser, só fingir ser
alegre e feliz
e gostar de viver.
Mas um dia a hora chega
e mesmo havendo esperança
o palhaço se entrega
e espalha por terra
migalhas de risos
e água de lágrimas,
sem ninguém avisar,
sorrateiramente.
Deixa que vai
o circo que volta
e segue seu caminho
deixando o palhaço,
seguindo sozinho.
Passos
passam
pessoas
perdidas
possessas
por onde
quiser
Arranhos
no céu
estranhos
na terra
correndo
por onde
quiser
A pressa
domina
viola
na esquina
ecoando
por onde
quiser
Na cidade
do caos
do amor
e do medo
vivendo
por onde
quiser
Errantes
sem sapatos
de saltos
ou chinelos
querendo viver
por onde
quiser.
Questionar a quantidade de sais ou grãos de areia em um deserto, ou tentar ao menos separar os dois, é tarefa para quem preocupa-se com algumas coisas que outras pessoas consideram inútil. O que seria inútil? A busca pelas questões não óbvias ou curiosidades sobre a origem de algo, ou buscar pelo sucesso pessoal que traz admiração externa e fanáticos oportunistas? Acredito não existir resposta certa para essa questão, já que vivências e criação influenciam nas nossas decisões, mas onde encaixamos a razão e o bom senso, segundo Kant? Eu não sei, realmente, o que eu posso fazer para saciar essa angústia, essa dúvida sobre mim mesmo, sobre aqueles que amo e sobre a natureza que venero e abriga meu erros e tropeços. Eu me olho no espelho, vejo uma imagem um pouco diferente de ontem, um pouco igual, um tanto comum. Porém não reconheço, depois de cada tombo ou andar elevado, a mesma pessoa, os mesmos pensamentos. Dói, mas constrói o meu presente que sonha com meu futuro, mesmo que, de fora, pareça um vazio em busca de respostas para as questões mais bizarras - ou mais inconvenientes. Como poder matar a sede que sinto como se estivesse vivido a vida inteira em um deserto? Há um deserto dentro de mim esperando uma chuva de explicações no calor do meu momento e na frieza da minha alma.
Contarei até cem
cada ano que se passar
e não tiver você aqui
Se por acaso então chegar
ao centésimo pesar
posso encerrar ou ser feliz
Como se houvesse escolha
viveria até o último segundo
conservando o meu coração
Aprenderia então a viver
pois quem não aprenderia
com 100 anos de solidão?
Incomum,
que ainda não nasceu;
e que procura
e ainda não encontrou;
quem se perde
no que não morreu
mas que busca,
no que não aconteceu,
o que queria, de fato,
que tivesse acontecido.
Teu riso é como a rosa
que instiga pela beleza
Tem aroma que me agrada
Tem romance com clareza
Tem perigo disfarçado
em corpo inteiro, ou em pedaços.
E teu aroma, convidativo,
faz sentir-me ao vê-la, abraçado.
Confusão,
muita confusão,
diga-se de passagem.
Frio e chuva,
cachoeira e brasileiros
prosseguindo em viagem.
Medo assÃduo,
estranhas criaturas
de olhos azuis e sem pupila.
Sim, assustam,
sem nem enxergar,
o humano que basta respirar
para que, então,
sintam sua presença
e enfim possam atacar,
não lembro como,
pois de tanto de medo,
não tenho como lembrar.
Mas foi cômico,
um tanto quanto bizarro,
me agarrei em meus amigos,
nos escondemos,
nos abraçamos, sem esperança
ficamos. E aà eu acordei.
Quero dizer, minha senhora
Que você não vai me entender
Passo rápido, sem delongas
Quem sabe alguém entreter
Não se poupe, ou se esconda
Nem em cadeira precisa subir
Sou bonzinho, muito inocente
Só quero o meu queijo conseguir
E o gato - deixe o gato!
Ele não vai me alcançar!
Sou esperto, eu me estico,
e corro muito sem me cansar
Quero apenas, minha senhora,
que não se acanhe em me adotar
essa fugacidade em mim devora
a vontade de te conquistar!
- Oi, bom dia - disse o rapaz.
Me encantei com sua beleza. Pura, serena e curiosa. Espero encontrá-la novamente. E que seus cachinhos dourados permaneçam iluminando seu rosto e que você passa a ocupar seu lugar na ponta dos pelos do coelho.Seguiu sem suspense.
Um sorriso e um abraço
Expressando e exaltando, no calor desse momento,
De meu amor cada pedaço
Um medo, dois sonhos, três desejos.
Palavras ao vento, borboletas no estômago,
exprimindo em mim todo o sentimento
imensurável, afagado no âmago,
De perder e não conseguir aprender;
De ganhar e não conseguir manter;
De conquistar e não conseguir me conter;
De não conseguir te fazer feliz.
E seguir, sozinha, arrependida de não ter vivido.
Perdida na falta de tolerância,
enquanto há importância maior no que se vê,
desiludo-me com toda essa ganância.
Eu já morei com o desaforo
e engoli muitos pepinos.
Engasguei com expressões inauditas.
Tenho papas na lÃngua
e meus cotovelos são mudos.
Me expressei comigo escondida.
Sou assim meio sozinha
e ouço apenas, nunca falo.
Transbordei-me com a minha escrita.
Esvaziei-me quando sorri
ou quando chorei para mim mesmo.
Completei-me de palavras contidas.
Eu sussurrei com o meu canto
e os meus gritos foram silenciosos.
Cresci e vivi assim, tão reprimida.



